YES, nós temos vanguarda!


Esta semana, com a visita oficial do Príncipe Naruhito, celebra-se os cem anos da imigração japonesa no Brasil. E por trás de toda a pompa e circunstância sempre indispensáveis na presença de alguém como um Príncipe, esta ocasião proporciona, também, momento de reflexão para todos nós no que diz respeito ao processo de construção de nossa nação e seu potencial como contribuinte para a paz mundial.

Desde que o Kasato Maru atracou no Brasil trazendo os primeiros imigrantes japoneses, muita coisa mudou por aqui e parte desta mudança devemos a estes homens e mulheres vindos de terra tão distante e determinados a aqui fincarem o restante de suas respectivas existências.

Como em qualquer sociedade multi-étnica como a nossa, cada povo desempenha papel de fundamental importância, cada povo funciona como uma engrenagem na gigantesca máquina sul americana a qual damos o nome de Brasil. E no caso dos japoneses, não seria diferente.

As contribuições pontuais dadas por este povo como o trabalho duro no campo e o desenvolvimento de tecnologias que possibilitaram a produção de frutas, legumes e verduras em terrenos antes tidos como inviáveis para algo além de ervas daninhas são de fato inestimáveis. Mas penso que mais do que apenas desenvolvimento tecnológico, estes homens e mulheres trouxeram a nós uma filosofia de vida diferente sem, contanto, ser menos ou mais importante. Trouxeram a nós uma forma distinta de enxergar o mundo até mesmo nas pequenas coisas.

A construção da paz duradoura se faz, sempre, por consenso e o consenso precisa da diversidade para prosperar. O consenso, ironicamente, precisa deste emaranhado de diferenças na forma de indivíduos, povos, culturas e costumes distintos que não se furtam do desafio de construir algo maior que eles mesmos, não se furtam de construir um monumento ao esforço humano e sua capacidade de superação. A imigração sempre representou este esforço e nós brasileiros podemos nos orgulhar de determos a vanguarda da realização humana no tocante ao bem viver.

E é justamente por isto que considero nossa sociedade como a mais capaz, em todo o mundo, de enfrentar o grande desafio de nosso tempo que é o bom relacionamento internacional em um mundo cada vez mais integrado e interdependente. Este será nosso legado como um povo, nosso exemplo aos que há séculos se digladiam por diferenças ao invés de celebrá-las como aqui se faz.

E a isto me refiro aos europeus e também norte americanos que vão à contramão do exemplo brasileiro. A aprovação de lei contra imigração ilegal mais dura que inclusive criminaliza os que forem pegos sem os devidos documentos na Europa está, certamente, em sintonia com o exercício da soberania daquele povo, pois não se pode dar abrigo ali a todos que queiram. Todavia, é preciso cuidado e prudência para evitar que atitudes inconseqüentes transformem o que deveria ser solução (o complemento à mão-de-obra local), em problema de difícil controle.

Nunca acreditei na força no processo de solução de questões delicadas e não será diferente no caso da imigração. O direito à soberania não pode jamais servir de desculpa para atitudes xenófobas e degradantes à condição humana. O orgulho europeu personificado em suas fortes tradições que são sim importantes, mas que nunca podem ser tidas como dogmas, acaba por colocar em risco a própria sociedade européia já que restringe a capacidade daquele povo de se adaptar aos tempos de intensa internacionalização.

Construções de muros em fronteiras, deportações em massa, políticas discriminatórias e xenófobas não são o caminho para o consenso. Basta lançar olhar ao Brasil para compreender isto, de uma vez por todas.

Um comentário:

Moreno Rocha disse...

Esse texto foi MUITO bom. Você que morou num país onde existe a dependência de estrangeiros sabe bem o que a mistura representa nesse caso. Acontece que os países desenvolvidos n querem gente "pobre e não instruída!